Criar um Deus que toma partido em guerras é, na prática, projetar no céu os interesses da terra. É transformar o sagrado em instrumento, e não em referência ética. Quando líderes ou grupos afirmam lutar “em nome de Deus”, muitas vezes estão, na verdade, blindando suas ações contra questionamentos. Afinal, se a guerra é apresentada como vontade divina, quem ousaria contestá-la? Esse discurso desarma o senso crítico e anestesia a consciência coletiva, permitindo que atrocidades sejam cometidas sob o manto da fé. A religião, nesse contexto, deixa de ser ponte entre pessoas e passa a ser muro entre inimigos. Mas há uma contradição evidente nesse tipo de narrativa.
quinta-feira, 2 de abril de 2026
A construção de um “Deus de guerra”
Criar um Deus que toma partido em guerras é, na prática, projetar no céu os interesses da terra. É transformar o sagrado em instrumento, e não em referência ética. Quando líderes ou grupos afirmam lutar “em nome de Deus”, muitas vezes estão, na verdade, blindando suas ações contra questionamentos. Afinal, se a guerra é apresentada como vontade divina, quem ousaria contestá-la? Esse discurso desarma o senso crítico e anestesia a consciência coletiva, permitindo que atrocidades sejam cometidas sob o manto da fé. A religião, nesse contexto, deixa de ser ponte entre pessoas e passa a ser muro entre inimigos. Mas há uma contradição evidente nesse tipo de narrativa.
segunda-feira, 23 de março de 2026
Estado Laico e Democracia: os riscos do fundamentalismo religioso na política brasileira
Em uma democracia constitucional, como a brasileira, o presidente da República é eleito para governar em nome de todo o povo, respeitando a Constituição, as leis e a pluralidade que caracteriza a sociedade. O Brasil é um país diverso em crenças, culturas e visões de mundo, e essa diversidade é protegida por um princípio fundamental: a laicidade do Estado. Isso significa que o governo não deve privilegiar ou impor qualquer religião, mas garantir a liberdade de todas — inclusive a de não professar nenhuma.
Quando líderes políticos passam a utilizar discursos religiosos como base para suas decisões ou como instrumento de poder, surge um risco real: a confusão entre fé pessoal e dever público. A fé é legítima no âmbito individual, mas não pode ser transformada em política de Estado. Governos não são eleitos para defender doutrinas religiosas específicas, mas para promover o bem comum, assegurar direitos e respeitar a Constituição.
O avanço de um fundamentalismo religioso na política pode gerar consequências graves. Entre elas, a exclusão de minorias, a restrição de direitos civis e o enfraquecimento das instituições democráticas. Quando uma visão religiosa se sobrepõe ao interesse público, abre-se espaço para a intolerância e para a imposição de valores que não representam toda a sociedade.
Além disso, esse tipo de movimento pode comprometer o equilíbrio entre os poderes e ameaçar a própria democracia. Um Estado que se deixa capturar por interesses religiosos deixa de ser neutro e passa a agir de forma parcial, o que contraria os princípios republicanos. A história mostra que a mistura entre religião e poder político, quando não mediada por limites claros, frequentemente resulta em conflitos e injustiças.
Defender a laicidade não é ser contra a religião, mas sim garantir que todas as crenças convivam em igualdade, sem imposições. É assegurar que o Estado permaneça como um espaço comum, onde decisões são tomadas com base na lei, na razão pública e no respeito à diversidade.
Portanto, é fundamental que a sociedade esteja atenta. A democracia exige vigilância constante, especialmente quando valores essenciais, como a separação entre religião e Estado, estão em jogo. Um presidente governa para todos os brasileiros — independentemente de sua fé — e deve sempre agir guiado pela Constituição, não por dogmas religiosos.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2026
Por que se prega tanto o ódio quando se fala tanto em Deus? Que tipo de cristianismo é esse?
Por Elias Barboza
É impossível não se indignar diante de um
paradoxo cada vez mais evidente: quanto mais se invoca o nome de Deus em
discursos públicos, púlpitos, redes sociais e arenas políticas, mais se percebe
a disseminação do ódio, da intolerância e da exclusão. Em nome de Deus,
erguem-se muros em vez de pontes; apontam-se dedos em vez de mãos estendidas. Afinal,
que tipo de cristianismo é esse que se proclama com a boca, mas se nega nas
atitudes?
O cristianismo, em sua essência, nasce do
amor. Jesus Cristo, sua principal referência, jamais pregou o ódio. Pelo contrário, ensinou o amor ao próximo, a
compaixão pelos marginalizados, o perdão aos inimigos e a misericórdia como
caminho de salvação. “Amai-vos uns aos outros”, disse Ele. No entanto, muitos
dos que hoje se autodenominam cristãos parecem ter esquecido esse princípio
básico, substituindo o evangelho do amor por um discurso moralista, punitivo e
seletivo.
O que se vê é uma fé instrumentalizada.
Deus passa a ser usado como argumento para justificar preconceitos contra
pobres, negros, mulheres, pessoas LGBTQIA+, imigrantes e todos aqueles que
fogem do padrão imposto por uma religiosidade rígida e autoritária. Trata-se menos de espiritualidade e mais de poder.
Menos de fé e mais de controle social. Um cristianismo que exclui não é
cristão; é ideológico.
Esse fenômeno não surge do nada. Ele se
alimenta do medo, da desinformação e da conveniência política. Quando líderes
religiosos trocam o evangelho pela retórica do inimigo, criam fiéis que não
refletem, apenas obedecem. O resultado é uma multidão que confunde fé com
intolerância e acredita que odiar o outro é um ato de devoção. Mas não é. Nunca
foi.
É preciso dizer com clareza: não se pode
falar em Deus e desprezar a dignidade humana. Não se pode erguer a Bíblia com
uma mão e ferir com a outra. Um cristianismo que silencia diante da fome, da
violência, do racismo e do feminicídio, mas grita contra a diversidade, está
profundamente distorcido. Ele trai o Cristo que diz seguir.
Talvez a pergunta mais honesta não seja
apenas “que tipo de cristianismo é esse?”, mas “a quem esse cristianismo
serve?”. Certamente não serve ao Deus
do amor, da justiça e da misericórdia. Serve a interesses humanos, vaidades e
projetos de dominação. Recuperar o verdadeiro sentido da fé cristã exige coragem:
coragem para amar, para acolher e para reconhecer que Deus não habita no ódio,
mas no respeito à vida.
Falar de Deus deveria nos tornar mais
humanos, não mais cruéis. Se isso não está acontecendo, algo está profundamente
errado.


