quinta-feira, 2 de abril de 2026

A construção de um “Deus de guerra”


Ao longo da história, poucas ideias foram tão poderosas e perigosas quanto a apropriação do sagrado para fins humanos. Quando a fé, que deveria ser espaço de acolhimento, transcendência e esperança, e sequestrada por interesses políticos ou territoriais, nasce uma das mais antigas distorções da humanidade: a criação de um “Deus de guerra”. Não um Deus verdadeiro, universal e amoroso, mas uma construção moldada para legitimar conflitos, alimentar ódios e absolver violências. Esse fenômeno não é novo. Povos antigos frequentemente invocavam divindades como justificativa para expandir territórios, subjugar inimigos ou manter o poder. No entanto, a repetição desse padrão ao longo dos séculos revela mais sobre o ser humano do que sobre qualquer divindade.
          
Criar um Deus que toma partido em guerras é, na prática, projetar no céu os interesses da terra. É transformar o sagrado em instrumento, e não em referência ética. Quando líderes ou grupos afirmam lutar “em nome de Deus”, muitas vezes estão, na verdade, blindando suas ações contra questionamentos. Afinal, se a guerra é apresentada como vontade divina, quem ousaria contestá-la? Esse discurso desarma o senso crítico e anestesia a consciência coletiva, permitindo que atrocidades sejam cometidas sob o manto da fé. A religião, nesse contexto, deixa de ser ponte entre pessoas e passa a ser muro entre inimigos. Mas há uma contradição evidente nesse tipo de narrativa.

        

As grandes tradições religiosas, apesar de suas diferenças, compartilham princípios fundamentais como compaixão, justiça, misericórdia e respeito à vida. Um Deus que exige destruição, ódio e exclusão parece mais um reflexo das fragilidades humanas do que daquilo que essas tradições ensinam. É a inversão do sagrado pra elevar o homem, rebaixa Deus e, justificar para insanos e ignorantes religiosos que são as “profecia divina”. A construção de um “Deus de guerra” também serve como mecanismo de afirmar que Deus está “do nosso lado”, cria-se automaticamente um “outro” que estaria contra Ele. O inimigo deixa de ser alguém com história, dor e dignidade, e passa a ser apenas um obstáculo a ser eliminado.

Em tempos contemporâneos, essa prática ainda persiste, muitas vezes de forma mais sofisticada. Discursos religiosos são utilizados para justificar políticas excludentes, conflitos geopolíticos e até violência social. A retórica pode mudar, mas a essência permanece, usando o nome de Deus para legitimar aquilo que, em sua ausência, seria moralmente indefensável. Diante disso, cabe uma reflexão urgente. Qual Deus estamos defendendo quando apoiamos discursos de ódio travestidos de fé? Um Deus que divide ou um Deus que acolhe? Um Deus que arma ou um Deus que reconcilia? A resposta a essas perguntas não está apenas nos templos ou nos textos sagrados, mas nas escolhas cotidianas de cada indivíduo e sociedade. 

E talvez a verdadeira fé comece justamente quando nos recusamos a aceitar um Deus que precise da guerra para existir.





segunda-feira, 23 de março de 2026

Estado Laico e Democracia: os riscos do fundamentalismo religioso na política brasileira


Em uma democracia constitucional, como a brasileira, o presidente da República é eleito para governar em nome de todo o povo, respeitando a Constituição, as leis e a pluralidade que caracteriza a sociedade. O Brasil é um país diverso em crenças, culturas e visões de mundo, e essa diversidade é protegida por um princípio fundamental: a laicidade do Estado. Isso significa que o governo não deve privilegiar ou impor qualquer religião, mas garantir a liberdade de todas — inclusive a de não professar nenhuma.


Quando líderes políticos passam a utilizar discursos religiosos como base para suas decisões ou como instrumento de poder, surge um risco real: a confusão entre fé pessoal e dever público. A fé é legítima no âmbito individual, mas não pode ser transformada em política de Estado. Governos não são eleitos para defender doutrinas religiosas específicas, mas para promover o bem comum, assegurar direitos e respeitar a Constituição.

O avanço de um fundamentalismo religioso na política pode gerar consequências graves. Entre elas, a exclusão de minorias, a restrição de direitos civis e o enfraquecimento das instituições democráticas. Quando uma visão religiosa se sobrepõe ao interesse público, abre-se espaço para a intolerância e para a imposição de valores que não representam toda a sociedade.

Além disso, esse tipo de movimento pode comprometer o equilíbrio entre os poderes e ameaçar a própria democracia. Um Estado que se deixa capturar por interesses religiosos deixa de ser neutro e passa a agir de forma parcial, o que contraria os princípios republicanos. A história mostra que a mistura entre religião e poder político, quando não mediada por limites claros, frequentemente resulta em conflitos e injustiças.


Defender a laicidade não é ser contra a religião, mas sim garantir que todas as crenças convivam em igualdade, sem imposições. É assegurar que o Estado permaneça como um espaço comum, onde decisões são tomadas com base na lei, na razão pública e no respeito à diversidade.

Portanto, é fundamental que a sociedade esteja atenta. A democracia exige vigilância constante, especialmente quando valores essenciais, como a separação entre religião e Estado, estão em jogo. Um presidente governa para todos os brasileiros — independentemente de sua fé — e deve sempre agir guiado pela Constituição, não por dogmas religiosos.




quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Por que se prega tanto o ódio quando se fala tanto em Deus? Que tipo de cristianismo é esse?

 


Por Elias Barboza

É impossível não se indignar diante de um paradoxo cada vez mais evidente: quanto mais se invoca o nome de Deus em discursos públicos, púlpitos, redes sociais e arenas políticas, mais se percebe a disseminação do ódio, da intolerância e da exclusão. Em nome de Deus, erguem-se muros em vez de pontes; apontam-se dedos em vez de mãos estendidas. Afinal, que tipo de cristianismo é esse que se proclama com a boca, mas se nega nas atitudes?

O cristianismo, em sua essência, nasce do amor. Jesus Cristo, sua principal referência, jamais pregou o ódio. Pelo contrário, ensinou o amor ao próximo, a compaixão pelos marginalizados, o perdão aos inimigos e a misericórdia como caminho de salvação. “Amai-vos uns aos outros”, disse Ele. No entanto, muitos dos que hoje se autodenominam cristãos parecem ter esquecido esse princípio básico, substituindo o evangelho do amor por um discurso moralista, punitivo e seletivo.

O que se vê é uma fé instrumentalizada. Deus passa a ser usado como argumento para justificar preconceitos contra pobres, negros, mulheres, pessoas LGBTQIA+, imigrantes e todos aqueles que fogem do padrão imposto por uma religiosidade rígida e autoritária. Trata-se menos de espiritualidade e mais de poder. Menos de fé e mais de controle social. Um cristianismo que exclui não é cristão; é ideológico.

Esse fenômeno não surge do nada. Ele se alimenta do medo, da desinformação e da conveniência política. Quando líderes religiosos trocam o evangelho pela retórica do inimigo, criam fiéis que não refletem, apenas obedecem. O resultado é uma multidão que confunde fé com intolerância e acredita que odiar o outro é um ato de devoção. Mas não é. Nunca foi.

É preciso dizer com clareza: não se pode falar em Deus e desprezar a dignidade humana. Não se pode erguer a Bíblia com uma mão e ferir com a outra. Um cristianismo que silencia diante da fome, da violência, do racismo e do feminicídio, mas grita contra a diversidade, está profundamente distorcido. Ele trai o Cristo que diz seguir.

Talvez a pergunta mais honesta não seja apenas “que tipo de cristianismo é esse?”, mas “a quem esse cristianismo serve?”. Certamente não serve ao Deus do amor, da justiça e da misericórdia. Serve a interesses humanos, vaidades e projetos de dominação. Recuperar o verdadeiro sentido da fé cristã exige coragem: coragem para amar, para acolher e para reconhecer que Deus não habita no ódio, mas no respeito à vida.

Falar de Deus deveria nos tornar mais humanos, não mais cruéis. Se isso não está acontecendo, algo está profundamente errado.