QUANDO DEUS VIRA CABO ELEITORAL, O BRASILEIRO FICA NO BECO DA IGNORÂNCIA E DO FANATISMO
Há momentos em que uma sociedade precisa parar de fingir que não está vendo o abismo. O Brasil atravessa um desses momentos. A ignorância, alimentada pela desinformação, encontrou na radicalização política e no fundamentalismo religioso uma combinação explosiva. E o resultado é uma multidão sendo conduzida para um perigoso beco onde o pensamento crítico é tratado como traição, a divergência como pecado e a política como uma guerra santa. Não é mais apenas uma disputa eleitoral. Em determinados ambientes, transformaram a política em religião e políticos em objetos de devoção. O cidadão já não é convidado a pensar. É convocado a obedecer.
É preciso dizer o óbvio: Deus não é cabo eleitoral de político algum. A Bíblia não é programa partidário. O púlpito não é palanque. O pastor não é chefe de partido. E o fiel não nasceu para ser massa de manobra eleitoral. Quando um político começa a ser tratado como “ungido”, qualquer crítica contra ele passa a ser apresentada como perseguição. Quando uma liderança religiosa determina em quem seus seguidores devem votar, a consciência individual é substituída pela obediência. E quando alguém ousa questionar, recebe imediatamente o rótulo de inimigo da fé. Isso não é fé. É poder.
O mecanismo é conhecido: fabrica-se um inimigo, alimenta-se o medo e apresenta-se um salvador. O inimigo pode ser a esquerda, a direita, o comunismo, o socialismo, o ateísmo, a imprensa, a universidade, o Judiciário ou qualquer outro grupo conveniente. O importante é manter a comunidade permanentemente assustada. Porque uma população com medo pergunta pouco. E quem pergunta pouco obedece muito.
As redes sociais tornaram essa máquina de manipulação ainda mais eficiente. Uma mentira pode atravessar o país em poucos minutos. Uma fotografia adulterada pode parecer documento. Um vídeo retirado de contexto pode virar “prova”. Uma frase inventada pode ser atribuída a uma autoridade. E milhões de pessoas compartilham sem sequer perguntar de onde veio a informação.
A verdade tornou-se inconveniente porque exige esforço. A mentira, ao contrário, chega pronta, emocional e confortável. É justamente por isso que o fanatismo prospera. O fanático não procura informação; procura confirmação. Não quer saber se aquilo que recebeu é verdadeiro. Quer apenas que seja verdadeiro porque confirma aquilo em que já decidiu acreditar. E assim nasce uma sociedade dividida em tribos políticas, religiosas e ideológicas, cada uma convencida de possuir o monopólio da verdade. O adversário deixa de ser cidadão. Vira inimigo. O debate desaparece. Entra em cena a demonização.
A consequência é devastadora. Pessoas que deveriam discutir saúde pública, educação, segurança, emprego, saneamento, corrupção e desenvolvimento passam horas discutindo quem é mais patriota, mais cristão, mais conservador, mais progressista ou mais “abençoado”. Enquanto isso, os problemas reais continuam esperando. É conveniente para determinados grupos que o povo permaneça distraído numa guerra cultural interminável. Enquanto brasileiros brigam por políticos nas redes sociais e dentro dos templos, pouca atenção sobra para perguntar quem administra bem o dinheiro público, quem entrega resultados, quem apresenta propostas e quem simplesmente vive de discursos. O fanatismo político é uma excelente cortina de fumaça.
E há algo ainda mais grave: a utilização da religião para blindar políticos contra a crítica. A fé passa a funcionar como escudo. O político pode errar, mentir, fracassar ou ser acusado de irregularidades, mas seus seguidores imediatamente transformam qualquer questionamento em “perseguição”. É a inversão completa dos valores. Em uma democracia madura, o cidadão fiscaliza o político. No fanatismo, o cidadão passa a proteger o político. Esse é o momento em que a democracia começa a adoecer.
Não se trata de atacar a religião. Muito pelo contrário. Trata-se de defender a liberdade religiosa contra aqueles que desejam transformá-la em instrumento de poder. Uma fé verdadeiramente livre não precisa de candidato ungido, inimigo permanente ou discurso de ódio para sobreviver. Da mesma forma, nenhuma ideologia política merece ser transformada em religião. Político não é santo. Partido não é igreja. Eleição não é batalha espiritual. E eleitor não é discípulo.
O Brasil precisa urgentemente recuperar o direito de pensar. Precisa ensinar seus cidadãos a desconfiar de certezas fáceis, verificar informações, confrontar fontes e aceitar que ninguém possui o monopólio da verdade. Porque o maior perigo não está apenas na mentira contada pelo manipulador. Está na multidão que perdeu a vontade de verificar. Quando a ignorância encontra a desinformação, o fanatismo oferece o combustível. Quando esse combustível chega às mãos do poder político, a democracia pode transformar-se em refém daqueles que descobriram como governar não pela razão, mas pelo medo, pela fé manipulada e pela divisão. O Brasil não precisa de salvadores. Precisa de cidadãos.
Cidadãos capazes de dizer não ao político que tenta se apresentar como escolhido por Deus; não ao religioso que transforma o púlpito em palanque; não ao influenciador que fabrica mentiras para obter audiência; e não a qualquer projeto de poder que exija a renúncia da consciência individual. Porque uma sociedade que entrega sua consciência a líderes políticos ou religiosos abre mão da própria liberdade. E quando uma população deixa de pensar, alguém sempre aparece disposto a pensar por ela.
Esse é o verdadeiro beco da loucura.