Por Elias Barboza
É impossível não se indignar diante de um
paradoxo cada vez mais evidente: quanto mais se invoca o nome de Deus em
discursos públicos, púlpitos, redes sociais e arenas políticas, mais se percebe
a disseminação do ódio, da intolerância e da exclusão. Em nome de Deus,
erguem-se muros em vez de pontes; apontam-se dedos em vez de mãos estendidas. Afinal,
que tipo de cristianismo é esse que se proclama com a boca, mas se nega nas
atitudes?
O cristianismo, em sua essência, nasce do
amor. Jesus Cristo, sua principal referência, jamais pregou o ódio. Pelo contrário, ensinou o amor ao próximo, a
compaixão pelos marginalizados, o perdão aos inimigos e a misericórdia como
caminho de salvação. “Amai-vos uns aos outros”, disse Ele. No entanto, muitos
dos que hoje se autodenominam cristãos parecem ter esquecido esse princípio
básico, substituindo o evangelho do amor por um discurso moralista, punitivo e
seletivo.
O que se vê é uma fé instrumentalizada.
Deus passa a ser usado como argumento para justificar preconceitos contra
pobres, negros, mulheres, pessoas LGBTQIA+, imigrantes e todos aqueles que
fogem do padrão imposto por uma religiosidade rígida e autoritária. Trata-se menos de espiritualidade e mais de poder.
Menos de fé e mais de controle social. Um cristianismo que exclui não é
cristão; é ideológico.
Esse fenômeno não surge do nada. Ele se
alimenta do medo, da desinformação e da conveniência política. Quando líderes
religiosos trocam o evangelho pela retórica do inimigo, criam fiéis que não
refletem, apenas obedecem. O resultado é uma multidão que confunde fé com
intolerância e acredita que odiar o outro é um ato de devoção. Mas não é. Nunca
foi.
É preciso dizer com clareza: não se pode
falar em Deus e desprezar a dignidade humana. Não se pode erguer a Bíblia com
uma mão e ferir com a outra. Um cristianismo que silencia diante da fome, da
violência, do racismo e do feminicídio, mas grita contra a diversidade, está
profundamente distorcido. Ele trai o Cristo que diz seguir.
Talvez a pergunta mais honesta não seja
apenas “que tipo de cristianismo é esse?”, mas “a quem esse cristianismo
serve?”. Certamente não serve ao Deus
do amor, da justiça e da misericórdia. Serve a interesses humanos, vaidades e
projetos de dominação. Recuperar o verdadeiro sentido da fé cristã exige coragem:
coragem para amar, para acolher e para reconhecer que Deus não habita no ódio,
mas no respeito à vida.
Falar de Deus deveria nos tornar mais
humanos, não mais cruéis. Se isso não está acontecendo, algo está profundamente
errado.